Projetando o sucesso com o agro brasileiro: ciência, criatividade, trabalho e coragem

Nos últimos 50 anos, o Brasil tem percorrido um caminho marcado por idas e vindas, tentativas e erros, muitas vezes interrompidos por atalhos sem saída e por barricadas ideológicas. O resultado é um crescimento econômico aquém do potencial, acompanhado de um profundo gap social e de um ambiente político complexo, marcado por radicalismos. São fatos, não percepções, que acabam mostrando a capacidade econômica sempre aquém da esperada. Não se trata, como lembrava Ariano Suassuna, de um otimismo tolo nem de um pessimismo chato. Após meio século crescendo abaixo da média mundial e com algumas décadas perdidas, vale novamente lembrar aquele intelectual e sua ideia de que “o sonho é que leva a gente para frente. Se a gente for seguir a razão, fica aquietado, acomodado”. “O otimista é um tolo, o pessimista é um chato. Bom mesmo é ser um realista esperançoso” -- Ariano Suassuna É com esse espírito que convidamos o leitor a projetar o futuro a partir da experiência do agro tropical brasileiro, que nas últimas cinco décadas se desenvolveu com base em ciência, criatividade, trabalho árduo e coragem, e que ainda pode realizar muito mais. O Brasil já foi importador de alimentos e energia, dependência que se mostrou arriscada, sobretudo durante as grandes guerras mundiais. A partir dos anos 1970, investimentos consistentes em P&D e formação de pesquisadores transformaram aquelas “mudas promissoras” em árvores robustas de conhecimento, capazes de produzir em escala e mudar o perfil do país. O agro foi decisivo para a transição de uma balança comercial deficitária para superávits estruturais. Nesse contexto, e em meio a narrativas internacionais muitas vezes distorcidas, a Associação Brasileira do Agronegócio (Abag) passou a defender a estratégia da integração. No século XXI, marcado pela bioeconomia e pela busca global por desenvolvimento sustentável, o Brasil desponta como protagonista pela sua sustentabilidade tropical, dimensão territorial, tecnologia desenvolvida e pela qualidade de seus agricultores e empresas. Globo Rural Estudos recentes, como análise da McKinsey (outubro/2025), apontam que fatores macroeconômicos, petroquímicos e tecnológicos favorecem a integração energética. No caso da integração alimentar, destacam-se como vetores a tecnologia, as pessoas, a sustentabilidade produtiva e os aspectos microeconômicos. Avança, assim, a compreensão sobre o papel estratégico da bioeconomia e do uso integral da biomassa nos diferentes biomas, inclusive como alternativa de desenvolvimento agroindustrial para regiões historicamente marginalizadas. Desenha-se assim, uma integração entre a produção agrícola e as biorrefinarias, com indústrias agregando valor a produtos e coprodutos. O Brasil lidera esse processo ao combinar hidrocarbonetos, carboidratos, proteínas e fibras. O potencial disso é espetacular e deveria ser o foco do país para os anos vindouros, como o será para nós. A agroindústria tropical contemporânea é uma indústria a céu aberto, fora dos ambientes convencionais, onde os investimentos operacionais são maiores no campo que no galpão, de desafios enormes na mobilidade conectada na qual o Brasil é a primeira fronteira deste processo. São crescimentos destes limites que expandem as fronteiras do nano (genética) ao giga (dados) por todos os dias do ano no meio tropical. Leia mais opiniões de especialistas e lideranças do agro O mundo nunca foi tão rico nem tão avançado tecnologicamente, mas convive com a persistência da fome, da pobreza energética e de riscos crescentes associados a conflitos, mudanças climáticas e exclusão econômica. A fome gera instabilidade geopolítica, alimentando um curso perverso que aprofunda desigualdades. Romper esse ciclo é um desafio global. A agroindústria integrada, dos insumos à distribuição, é parte central da solução para ampliar oferta, acesso e bem-estar. Isso exige competição saudável, cooperação e alianças duradouras. A relevância do agro brasileiro impõe ao país um papel ativo na construção de agroalianças globais, no fortalecimento das cadeias logísticas e na expansão de agroindústrias que promovam inclusão, segurança alimentar e energética. Esse caminho não passa por protecionismos ou por uma falsa noção de soberania alimentar. As agroalianças se constroem com visão, diálogo e liderança. Por isso, a Abag avança na constituição de um Conselho Estratégico de Alto Nível, nacional e internacional, para estimular reflexões, visões compartilhadas e propostas concretas para o futuro. Precisamos de mais oportunidades conjuntas, menos barreiras e mais ousadia. Afinal, cada dólar investido no agro evita muitos outros gastos com crises. É uma escolha política, um dever moral e uma necessidade estratégica. O Brasil agroindustrial, especialmente no mundo tropical, pode e deve liderar esse processo. *Ingo Plöger é Presidente da Abag e Luiz Carlos Corrêa Carvalho é Presidente do Conselho de Alto Nível da Abag As ideias e opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam, necessariamente, o posicionamento editorial da Globo Rural