ADM negocia venda de sua fábrica de ração em MG para o grupo Agronorte

A ADM está em tratativas avançadas para a venda de sua fábrica de ração localizada em Três Corações (MG) para a companhia brasileira Agronorte, uma empresa do agronegócio em ascensão nas regiões Norte e Nordeste e que registra um crescimento de mais de 30% ao ano. O valor da transação não é público, mas ficou bem abaixo do que a multinacional americana pretendia inicialmente, cerca de R$ 1,5 bilhão, apurou o Valor. A unidade parou de operar em meados do ano passado, quando a ADM decidiu encerrar as atividades devido ao elevado prejuízo que vinha tendo com o negócio. Apesar disso, a Agronorte viu na fábrica uma oportunidade de crescer de forma acelerada em um mercado em que já tem atuação parcial e no qual planeja avançar. Para a ADM, a venda da fábrica representa mais um passo em sua decisão de reduzir as operações em nutrição animal, negócio que teve “inconsistências contábeis” em 2023, o que penalizou seus resultados daquele ano. A fábrica de Três Corações opera há 50 anos e já trocou de dono duas vezes. É uma das maiores unidades de produção de ração do mundo, com capacidade de fabricar até 520 mil toneladas ao ano — mas que, sob a gestão da ADM, operava produzindo 200 mil toneladas ao ano. A principal linha de produção da unidade é de ração para pets, um mercado que cresce de 6% a 7% ao ano. A planta também fabrica ração para peixes e ruminantes. Leia também ADM espera aumentar vendas de fertilizantes e expande negócios para biológicos Em expansão, Agronorte quer construir armazéns próprios Para a Agronorte, a aquisição da fábrica deve permitir que a companhia mais do que dobre sua produção de ração e adicione entre R$ 350 milhões e R$ 400 milhões ao seu faturamento em 2026, a depender do ritmo de aprovação do negócio. A companhia já possui uma fábrica de ração em Tocantinópolis (TO) que atende desde o mercado de aves e suínos até peixes e ruminantes. Além desse negócio, a empresa atua em outros sete setores, e em 2025, teve uma receita líquida de R$ 1,3 bilhão. A aquisição da fábrica deverá ser submetida ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), sob rito sumário. A ADM conta com assessoria financeira do Barclays, e a Agronorte conta com assessoria da Ecowa. A transação representa uma leve correção na estratégia de crescimento da Agronorte, que havia elegido os setores de nutrição animal e de logística como prioritários para novos investimentos. Agora, em vez de investir em projetos “greenfield” de ração, a aquisição da planta da ADM deve atender seu plano para o segmento. Ampliação Em logística, a Agronorte mantém seu planejamento de ampliar a capacidade de armazenagem. Atualmente, opera três armazéns em Tocantins e pretende acrescentar todo ano uma capacidade de estocagem de 35 mil toneladas, o que pode ser garantido com novos silos ou ampliações dos existentes. “O Norte e o Nordeste têm muito déficit de armazenagem”, justifica Vinicius Carvalho, CEO e um dos sócios da Agronorte. O plano é buscar áreas para investimentos em logística onde o grupo já atua, como Maranhão, Pará e Piauí. Atualmente, o negócio de logística, que envolve também transporte rodoviário, representa 60% do faturamento da empresa. Ainda em logística, a empresa avalia investir em um terminal portuário no Norte ou Nordeste. “Nessa região os portos são pequenos e estão na mão de poucos”, diz Matheus Hyashida, sócio da Ecowa. Recentemente, a Agronorte assegurou um empréstimo de R$ 750 milhões junto ao BNDES, e está em negociação com um órgão multilateral para um financiamento de longo prazo. Segundo Hyashida, o plano é que o atual ciclo de investimentos não faça a alavancagem (relação entre dívida líquida e lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização, o Ebitda) passar de 2 vezes. Em 2025, esse indicador ficou em 1,7 vez, segundo a companhia — os dados não foram auditados. A expectativa é que, mesmo com a compra da planta da ADM, esse índice encerre o ano em 1,9 vez. Procurada, a ADM não respondeu até o fechamento da edição.