Robô que colhe açaí multiplica por quatro a renda de coletores na Amazônia

Robô que colhe açaí multiplica por quatro a renda de coletores na Amazônia
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A robótica entrou na floresta amazônica para superar alguns dos principais desafios da produção do açaí. Desenvolvido no Pará, o Açaíbot pode multiplicar por até quatro vezes a renda dos peconheiros (escaladores de palmeiras) que colhem a fruta, além de reduzir acidentes e elevar a produtividade da colheita. O desenvolvimento começou há quatro anos com um grupo de empreendedores, que pretendia criar uma fazenda de açaí no Estado do Pará. “O sistema atual da produção de açaí de floresta está condenado a continuar informal e precário. Remunera mal e é muito perigoso”, afirma João Rezende, diretor da Kaatech. Por isso, eles decidiram criar o robô para otimizar a colheita da fruta, apontada pela Organização Internacional do Trabalho (OIT) como uma das mais perigosas do mundo. O Açaíbot foi testado em condições reais da floresta, com chuva, calor, umidade e desafios de transporte. O robô sobe na palmeira, localiza o cacho e realiza o corte com segurança. Segundo Rezende, a produtividade saiu de 100 kg por dia no método tradicional para até 1 tonelada diária com o robô. “Quem ganhava R$ 600 por dia pode chegar a R$ 3 mil. E, no mínimo, quadruplicar a renda”, afirma. A autonomia é de quatro horas, com recarga em duas horas por sistemas placas solares. Apesar de tecnológico, o robô é fácil de operar. O equipamento conta apenas com três comandos no controle remoto: subir, abrir a serra (com um apito de alerta) e cortar. “É tão simples que permite a inclusão de pessoas que não poderiam subir nas árvores”, diz Rezende. Os primeiros protótipos, no entanto, eram quase artesanais com rodas de skate, motor de limpador de para-brisa, estrutura de ferro e peso entre 14 e 16 quilos. “A gente estava no caminho certo, mas precisávamos de outra engenharia”, admite Rezende. Assim, o projeto foi aprimorado ao longo de três anos por especialistas em engenharia aeronáutica, robótica, sistemas, mecânica, elétrica e ergonomia. Até que o protótipo número oito chegou ao desempenho ideal em junho de 2025 e peso de oito a nove quilos. Equipamento sobe na palmeira e corta o cacho do açaí Divulgação Atividade de alto risco A Organização Internacional do Trabalho (OIT) classifica a colheita do açaí como a segunda atividade mais perigosa do mundo. O nível de risco está apenas atrás da coleta de mel em penhascos na África. O peconheiro, trabalhador que usa a peconha (tipo de apoio para os pés) para subir nas palmeiras, convive historicamente com fraturas, lesões na coluna e até mortes durante a escalada. As palmeiras costumam ter mais de seis metros de altura e podem chegar a mais de 10 metros. No Amapá, inclusive, avaliações do Tribunal Regional do Trabalho (TRT) chegaram a apontar o alto grau de periculosidade. Diante desse cenário, o Açaíbot também foi apresentado a juízes do trabalho e à OIT. Initial plugin text Interesse do governo O equipamento também despertou o interesse do governo federal. Durante a COP30, em Belém, o próprio presidente Luiz Inácio Lula da Silva quis ver de perto a produção de açaí na Ilha Grande e se empolgou com o robô. “No primeiro dia da COP, fomos informados de que o presidente queria ver a produção de açaí. Levamos o robô e ele ficou empolgado, até postou nas redes sociais”, relata Rezende. Apesar da automação, a operação continua dependendo da experiência dos peconheiros. São eles que sabem identificar o ponto exato de maturação do fruto e orientar o corte correto. De acordo com Rezende, quase 500 robôs já foram comercializados e as entregas começam ainda em janeiro. A fábrica em Belém está em operação. A capacidade projetada é de 3 mil unidades por mês. “Se me pedirem hoje, eu entrego em fevereiro”, diz. O preço do equipamento é de R$ 19.569,20. Pelo Pronaf, o produtor tem desconto de 40% à vista, com subsídio público. Mata Atlântica Além da Amazônia, a tecnologia pode ser levada para a Mata Atlântica. Em parceria com a Associação dos Moradores e Amigos da Mata Atlântica (Amama), a Kaatech desenvolve uma versão do AçaíBot para a colheita de juçara (Euterpe edulis), espécie ameaçada e explorada ilegalmente para palmito. “A ideia é transformar uma atividade predatória em uma cadeia sustentável, com renda, conservação e tecnologia andando juntas”, afirma Rezende.