Chocolate vai ficar mais barato? Entenda o impacto da queda no preço do cacau

Chocolate vai ficar mais barato? Entenda o impacto da queda no preço do cacau
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As cotações internacionais do cacau desabaram 63,1% em um ano, o que, em tese, abriria espaço para queda nos preços de produtos como chocolates. Mas, de fato, eles ficarão mais em conta? De acordo com especialistas consultados pela Globo Rural, a tendência é de queda, mas o processo pode levar de seis a oito meses, dada a complexidade da cadeia da cacaueira e de derivados. “As empresas têm estoques e contratos firmados a cotações mais altas. O preço da amêndoa vem caindo, mas isso leva tempo para chegar ao produto final”, explica Ana Paula Losi, presidente da Associação da Indústria Processadoras de Cacau (AIPC). Leia também: O que explica a derrocada nos preços do cacau em janeiro Moagem de cacau recuou 14,6% no Brasil em 2025 Segundo ela, no entanto, o mercado global de cacau começa a "virar a página" depois de de quase duas temporadas de alta. Projeções do Organização Internacional do Cacau (ICCO, na sigla em inglês) indicam superávit (produção menos o processamento) de 287 mil toneladas de cacau na safra 2025/26 e de 267 mil toneladas em 2026/27. Em 2023/2024, havia um déficit histórico de cerca de 400 mil toneladas, o que levou os preços a mais de US$ 11,5 mil por tonelada, contra os atuais US$ 4,2 mil. Na temporada 2025/26, a combinação de oferta em recuperação e demanda mais fraca explica a retração das cotações da commodity. Apesar de alta na produção global de amêndoas de cacau, o principal gatilho da virada está do lado da demanda. Na Europa, a moagem recuou mais de 8%; no Brasil, a queda foi de 14%. “Tirando os EUA, todas as regiões reduziram a moagem no ano passado, em parte pelos preços mais altos ao consumidor final. É um sinal claro de desaceleração, já que a indústria não repassa todas as variações seja para cima ou para baixo”, afirma Ana Paula. De acordo com a executiva, a alta abrupta do cacau entre 2023 e 2024 (de 150% a 200%) também não teria sido repassada de forma integral ao varejo. Assim, o movimento comprimiu margens e desacelerou as compras de matéria-prima. Produção mundial Do lado da oferta, a África Ocidental ensaia recuperação após duas safras ruins. Costa do Marfim e Gana, responsáveis por cerca de 60% da produção mundial, caminham para volumes mais próximos da normalidade. Segundo a StoneX, a Costa do Marfim pode atingir 1,85 milhão de toneladas em 2025/26, enquanto Gana deve subir para algo entre 650 mil toneladas. Esse reequilíbrio sustenta a leitura de superávit no curto prazo. A produção mundial de amêndoas caiu a 4,38 milhões de toneladas em 2023/24, ano de déficit, e deve voltar a 4,66 milhões de toneladas em 2025/26. Os números, porém, podem mudar até o fim da safra, em setembro. Para se ter ideia, o volume ainda está abaixo das 5 milhões de toneladas de 2022/2023. Com a demanda industrial arrefecida e a oferta reagindo, o preço da amêndoa perdeu sustentação. “A desaceleração da moagem em grandes processadoras é um gatilho forte para a queda”, diz Lucca Bezzon, analista da StoneX. Ainda assim, o consumidor não deve ver chocolate mais barato na gôndola em curto prazo. A cadeia do cacau começa nas regiões cacaueiras ao redor do mundo, passa por processadoras de matéria-prima (como manteiga, licor e pó de cacau) e, apenas depois, chega à indústria de confeitaria e o varejo. Segundo Bezzon, quando o cacau disparou em 2024, a transmissão levou de seis a oito meses. Esse seria um intervalo mais realista para a “deflação do chocolate”, que deve ocorrer caso as cotações se mantenham mais baixas. Menos cacau Além do efeito preço, a indústria respondeu às oscilações do cacau com mudanças estruturais nas receitas. Grandes fabricantes reduziram a proporção de manteiga de cacau e ampliaram o uso de gorduras alternativas, aromatizantes e recheios. O movimento ocorreu sobretudo em chocolates de massa e produtos populares, nos quais o teor de cacau passou a ser mais flexível. “Isso não inclui os produtos premium, nos quais estão determinados os percentuais de cacau. Me refiro a barras de chocolate com 70% de cacau, por exemplo”, explica Ana Paula Losi. O redesenho, no entanto, tornou-se estrutural, após a disparada de preços em 2023/24. Segundo Bezzon, as empresas internalizaram processos produtivos menos dependentes do insumo original. “Houve uma mudança de padrão que foi estrutural no primeiro momento”, observa Bezzon. Desempenho do Brasil O Brasil tem capacidade instalada de 275 mil toneladas, mas moeu cerca de 190 mil toneladas em 2025. Tratou-se do pior desempenho desde a pandemia. Como o país é importador de amêndoas e exportador de derivados (licor, manteiga e pó), o setor ainda sente a demanda fraca e os custos ainda elevados. Com o preço interno das amêndoas em queda, a pressão deve aliviar a indústria de confeitaria, mas de forma gradual.