Crise em sementeiras de soja reacende discussão sobre concentração no setor

Crise em sementeiras de soja reacende discussão sobre concentração no setor
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O excesso de oferta de sementes de soja nas últimas safras desencadeou uma crise entre os multiplicadores de cultivares da oleaginosa, que reclamam de monopólio no elo anterior da cadeia, das empresas de melhoramento genético de plantas, e de supostas práticas anticoncorrenciais no setor. Entre as causas para o excesso de oferta está o aumento de sementes "piratas" e salvas no país, que impedem a ampliação das vendas de sementes certificadas. Investimentos de empresas, como Uniggel, Boa Safra e Tropical Sementes, no aumento da capacidade de produção de sementes, mesmo em um cenário de vendas estáveis de sementes certificadas e uma suposta venda casada no licenciamento de cultivares completam o cenário. Dados da Associação Brasileira dos Produtores de Sementes de Soja (Abrass) indicam que 27% da soja plantada na safra 2025/26 não foi certificada. Um estudo da CropLife Brasil indica que 11% da produção de sementes de soja não paga royalties e é classificada como pirataria. No Rio Grande do Sul, a pirataria é três vezes maior que no resto do país, segundo a Croplife. Leia também Frísia e Castrolanda se unem na produção de sementes Grupo Formoso, dono da Uniggel Sementes, pede recuperação judicial A principal reclamação de produtores de sementes de soja é que a GDM Genética do Brasil, empresa líder do segmento, tem praticado venda casada no licenciamento de suas cultivares. E criticam a distribuição de novas cotas para multiplicação das variedades do grupo argentino. Com sobras na produção de até 40% e prejuízos na conta, os sementeiros querem reacender a discussão sobre a prática no Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), onde há um processo aberto desde 2020, e dar mais “transparência” à relação comercial. Procurada, a GDM informou que não iria se posicionar sobre o tema no momento. A soja é responsável por 80% da receita líquida da empresa no Brasil, de mais de R$ 2,5 bilhões em 2024. A acusação de sementeiros é que a companhia condiciona as licenças para multiplicação da variedade de Olimpo, preferida dos agricultores brasileiros e vendida com a marca Brasmax, à compra e reprodução de outros materiais do grupo. As condicionantes teriam colaborado para “inundar” o mercado e criar uma “superoferta”, com sobras de sementes e pouco espaço para fugir do domínio da companhia argentina, disseram multiplicadores de sementes sob condição de sigilo. A iniciativa teria minado a estratégia de expansão de outros obtentores vegetais nos últimos anos. A Tropical Melhoramento & Genética (TMG) está entre essas empresas de melhoramento genético afetadas pela dominância de um concorrente no mercado. “A gente tinha quase 20% do mercado há dez ou 15 anos atrás e perdemos com a hegemonia do concorrente”, afirmou Francisco Soares, presidente da TMG, sem citar nomes. Ele acrescentou que concorrentes de grande porte têm mais facilidade de convencer o produtor a multiplicar as sementes deles. “A TMG vem recuperando espaço com lançamentos mais produtivos que da concorrência, porque se for tão produtivo quanto, o produtor não troca de semente”, disse Soares. O executivo afirmou que, com a semente de soja TMG Itaúba i2x, a previsão é aumentar em 50% as vendas na safra 2025/26, o que deve fazer a participação de mercado sair de 4,5% para 6,5%. Soares acrescentou que o espaço para crescer é restrito. A empresa trabalha hoje com pouco mais de 100 multiplicadores de sementes no país. A Syngenta Seeds também relatou um cenário mais desafiador, com sobra de sementes. “O ano de 2025 foi mais desafiador que o anterior no balanço entre oferta x demanda de variedades, bem como no cenário de crédito, com impactos ainda mais relevantes no Sul, em função do histórico de produtividades do Rio Grande do Sul, Estado afetado por eventos climáticos nos últimos anos”, afirmou Frederico Barreto, diretor comercial da Syngenta Seeds. O executivo acrescentou que espera que o mercado se mantenha muito competitivo em 2026, em função da tendência de queda nos preços da soja e do aumento de oferta de novas variedades. “Há muitos lançamentos de novas variedades, até pela transição de biotecnologias, fator que adiciona risco ao planejamento de produção e de vendas da indústria de sementes. Estamos confiantes em ajustes finos desses planos para que a oferta seja mais aderente à demanda e o mercado seja mais saudável para toda a cadeia”, afirmou Barreto. Segundo fontes do setor, a determinação de cotas de multiplicação de cultivares pela empresa de genética influenciou nos resultados negativos que se espalharam pelo setor, como o encerramento das atividades da Sementes Campeã, controlada da Agrogalaxy, e o pedido de recuperação judicial de R$ 1,3 bilhão da Uniggel Sementes. A Boa Safra Sementes, uma das maiores multiplicadoras do mercado, com produção estimada em 4 milhões de sacas de sementes de soja por safra, teve o preço-alvo das suas ações cortado pelo Itaú BBA, de R$ 15 para R$ 10, e a recomendação rebaixadas de compra para neutra. O argumento usado foi o ciclo desafiador do setor de sementes. Felipe Marques, diretor financeiro da Boa Safra, disse que a queda nos preços dos grãos pressionou as margens dos produtores e os preços das sementes. “Os multiplicadores que não têm uma estrutura de capital reforçada sofreram mais o impacto. A gente fez o dever de casa, com o follow on [oferta secundária de ações] há dois anos e emissão de dívida de longo prazo, até 2042. Nos mantivemos sólidos para quando o mercado voltar à normalidade”, afirmou Marques. Segundo fontes do setor, os preços de algumas sementes chegaram a cair 70% no último ano, por conta do excesso de oferta, enquanto o valor cobrado pela genética subiu mais de 20%. O diretor da Boa Safra considera que, com as recuperações judiciais e o fechamento de empresas no setor, a oferta de sementes tende a se reduzir no mercado. A falta de liquidez no agro em geral foi outro fator que atingiu o setor. A mudança do ciclo financeiro no campo nublou o "oásis" de margens altas e vendas antecipadas dessas empresas. Desenvolvimento da cultivar Os produtores de sementes reconhecem o mérito da GDM no desenvolvimento da Olimpo. Adaptada para a região do Cerrado, a cultivar apresenta alta produtividade e virou referência no país. Alguns multiplicadores afirmam, porém, que a estratégia de licenciamento para multiplicação da empresa de genética “sufocou” o setor. Sementeiros ouvidos sob anonimato relataram que não são autorizados a multiplicar apenas a Olimpo e que há direcionamento de volumes e definição de regiões onde essas sementes poderão ser vendidas. “Se eu peço 100% de Olimpo, me autorizam 35% e o restante preciso reproduzir outras variedades deles”, disse um multiplicador. Contratos de multiplicadores com a GDM a que a reportagem teve acesso mostram as determinações de volume de sementes que poderão ser produzidas e a área onde poderão ser comercializadas. A estratégia teria resultado na expansão do market share da GDM na sojicultura nacional, de 63% em 2022 para 76% em 2024, até conseguir o domínio do mercado muito à frente de Bayer (6%), TMG (4%), Syngenta (4%), Corteva (1%) e Basf (1%). O movimento é uma das causas das unidades abarrotadas de sementes em Mato Grosso e do prejuízo milionário relatado pelos sementeiros enquanto a margem de lucro da companhia argentina ficou em 58% em 2024, em quase R$ 1,5 bilhão, segundo documento da empresa usado para estruturação de operação financeira em 2025. Initial plugin text Algumas das principais sementeiras do país acumularam sobras de 30% a 40% nos estoques de sementes de soja da safra 2024/25. Com a sobreoferta, as sementes tiveram que ser direcionadas a tradings para processamento como grãos, o que reduzi o preço da saca de R$ 220 para R$ 130. A exigência das empresas de genética para que multiplicadores produzam um mix de sementes, com quantidades determinadas, divide especialistas em Direito do agronegócio. Para Rodrigo Bressane, advogado em Cuiabá especialista na área, a obrigação de adquirir um mix de genéticas de cultivares para multiplicar pode ser considerada uma venda casada. “Não se pode vincular a venda de um determinado produto à venda de outro. Mas nenhum multiplicador é obrigado a fazer isso. Se assinou um contrato especificando as condições de produção e quantidades, não há violação de regra”, ponderou Bressane. Para o advogado Anaximandro Doudement Almeida, sócio do escritório Doudement Almeida, a estratégia adotada pela GDM e outras empresas do setor não configura venda casada. “A relação da produção de sementes é fundamentada por meio de contratos de licenciamento, normalmente de quatro a seis anos. O contrato garante previsibilidade, segurança jurídica e confiança nas transações. Nenhuma das partes é obrigada a concordar com os termos do contrato. Cabe aos multiplicadores avaliar a relação custo-benefício e risco do contrato”, afirmou Almeida. O tema deverá entrar na mira da bancada ruralista em Brasília em 2026. Com a volta do recesso parlamentar, representantes do setor sementeiro querem pressionar parlamentares ligados ao agro para destravar o processo no Cade. Outra possibilidade em estudo na cadeia, segundo interlocutores, é a elaboração de um projeto de lei para regular a relação comercial entre obtentores vegetais, como a GDM, e os multiplicadores. A proposta seria espelhada na Lei de Integração, de 2016, que regulamentou contratos de integração, obrigações e responsabilidades nas relações contratuais entre produtores integrados e integradores das cadeias de aves e suínos, principalmente. A legislação criou as Comissões para Acompanhamento, Desenvolvimento e Conciliação da Integração (Cadec), que monitoram a relação entre os elos da cadeia. Procuradas, a Associação Brasileira dos Produtores de Sementes de Soja (Abrass) , a Associação Brasileira de Sementes e Mudas (Abrasem) e a Associação dos Produtores de Sementes de Mato Grosso (Aprosmat) não se posicionaram.